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Lidia Susana Tavares

A matança do porco é sempre uma ocasião de confraternização da família e amigos. Um encontro de alegria com sabores inconfundíveis  e tradicionais no mês de Dezembro. Nesta ocasião são preparados alguns dos pratos mais interessantes de nossa culinária albicastrense, como por exemplo, as sopas chises. Estas fotos foram tiradas na época certa, mas porem só agora as pude publicar.

Para a Lídia Suzana, meu muito obrigado pela partilha.

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Marina Craveiro

Um festival de aromas e sabores albicastrenses.

Marina, Orlete, Dometília, Dulce, Maria,

Sabores e saberes albicastrenses, economicos e bolo preto.

ultimas 043 ingredientes selecionados com muito esmero Marina e Orlete preparam o "bolo preto". Cada ingrediente é na medida certa para compor esta deliciosa receita gastronomica albicastrense, que foi passada de mãe para filha. alquimia dos sabores e saberes albicastrenses Maria dá o toque pessoal na receita. Cada pitada tem seu motivo e porque, nada é por acaso nesta mistura de sabores. Marina e Orlete concentradas enquanto separam os ingredientes. o aroma de canela toma conta do ar... Marina a preparar  as raspas de laranja, o toque de aroma que faz o bolo ficar perfumado e com mais vida! Orlete e Marina preparam a massa. A mistura de ingredientes tem ciência tambem, há que fazer tudo a tempo e modos certos para que a massa fique aerada e de o toque final na hora que vai ao forno. Afinal o bolo preto tem que ser molhado intenso e com os "olhos da massa em formato de favos" quem já provou sabe.  Maria acrescenta o leite morno, para finalizar a massa. E aos poucos a farilha, ovos, açucar, canela, e o leite são misturados e encorpados na massa, está quase pronto. Mas nisso tudo tem o saber de muitas gerações. O ponto da massa e a combinação faz a diferença...

Maria dá o ultimo toque no forno. E dá uma conferida para ver se já está no ponto ou precisa de mais lenha. Forno frio deixa o bolo sovado quente demais torra a massa e deixa o bolo seco. O ponto do forno faz a diferença no resultado final da receita. Dulce, Dometilia e Marina, com as mãos na massa a preparar nas formas os econômicos. Massa espalhada, uma pitada de açucar por cima e está pronta a forma para ir ao forno dourar estas maravilhas que só as mãos albicastrenses fazem com tanta maestria. Econômicos: simples mas tão saborosos. Inconfundiveis Dulce e Dometilia, concentradas a fazer mais uma forma de economicos. O resultado final depois de ir ao forno. A massa cresce e o açucar cristaliza e deixa a massa crocante e tentadora. São servidos? Pudera, dá para sentir o aroma e o sabor só de olhar dá agua na boca... Marina orgulhosamente apresenta, uma fornada de "bolos pretos". Pena que a foto nao registra o aroma da massa quentinha. Fica a memoria olfativa de cada albicastrense a fazer a agua crescer na boca e a matar de saudades de uma fatia deles. A prova de que ficaram maravilhosos é de que nem elas aguentaram sem provar Orlete tira do forno uma forma de economicos no ponto. Hummmm tão bons... Querem provar?

Maria sempre a cuidar do forno e da fornada, nao se pode descuidar. O resultado final, ainda nas formas a esfriar para serem tirados sem quebrar um pedacinho sequer. Daqui a pouco vão sair de castelo branco com destino as casas das filhas, filhos e netos que moram nas cidades grandes. O sabor e o saber de Castelo Branco tem o gosto e o carinho  de mãe.

Fotos enviadas por Marina Craveiro 

 
Luis Pardal


Pascoa, folar de florianópolis.

O folar é tradicionalmente o pão da Pascoa, um alimento ancestral fruto da mistura ritual e alquímica da água , azeite, sal, ovos e farinha de trigo.

Ele representa a saida da quaresma, do jejum e abstinencia que o rito católico prescreve. A tradição do folar tem como base todo um ritual de partilha, solidariedade e confraternização, bem enraizado na gastronomia popular albicastrense que se perde no tempo e profundamente carregado de significado simbólico e religioso.

É também a oferenda aos afilhados pelos padrinhos e dos fiéis ao padre pela época da Páscoa. Existe neste acto uma ligação muito forte entre este e o pão que Jesus repartiu com os discípulos na última ceia.

Nalgumas receitas é encimado por um ovo cozido com casca, que representará simbolicamente o renascimento e Ressurreição de Jesus Cristo. Particularmente no nordeste de Trás-os-Montes em Castelo Branco  o folar é confeccionado à base de massa fofa e recheado com carne de porco, Presunto, Salpicão e Linguiça.

Na minha aldeia e tradiçao da segunda feira de Pascoa a visita do padre as casas para tirar o folar. A benção das casas, o pagamento do dizimo, pode ser considerado um verdadeiro elo de união entre o Terreno e o Divino pela carga simbólica que representa.

Deixo aqui a foto do folar que fiz este ano aqui em Florianopolis.

Feliz Pascoa!

Forte abraço,

Luis Pardal

 
Antonio Pires

 

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Artigos sobre tradição Pascal (clique para ler)

 

REVISITANDO CASTELO BRANCO: O toque da matraca 30 Mar 2010

O toque da matraca substitui, durante a semana santa,os sinos da aldeia que ficam mudos até á meia noite do sábado de aleiluia. Uma tradição católica da paixão de Cristo, levada muito a sério pelo nosso povo em outros... http://revisitandocastelobranco.blogspot.com/

REVISITANDO CASTELO BRANCO: SE BEM ME LEMBRO …26 Mai 2011

... que sobressaia do toque da “matraca”,que dois ou três moços novatos percorriam as principais ruas da aldeia pelo anoitecer, a fim de convidar as pessoas a um recolhimento espiritual . É natural que aquela matraca ainda ...http://revisitandocastelobranco.blogspot.com/

REVISITANDO CASTELO BRANCO: Feliz Páscoa! 22 Abr 2011

O folar é tradicionalmente o pão da Pascoa, um alimento ancestral fruto da mistura ritual e alquímica da água , azeite, sal, ovos e farinha de trigo. Ele representa a saida da quaresma, do jejum e abstinencia que o rito católico ...http://revisitandocastelobranco.blogspot.com/

REVISITANDO CASTELO BRANCO: O sagrado e o profano! 30 Set 2010

Sabia que a Páscoa estava para chegar, quando já não se ouvia o tocar das Trindades, o som diário que terminava as brincadeiras de todas as crianças de uma aldeia transmontana. O som dos sinos era trocado pelas ...http://revisitandocastelobranco.blogspot.com/

REVISITANDO CASTELO BRANCO: Água benta nas casas e festa ... 05 Abr 2010

O domingo de páscoa é um domingo especial. As casas estão cheias com os filhos, filhas e netos que vieram para o folar. Dia de rever os amigos, de tomar umas cervejas e uns cafés na praça. De tarde o baile animava os ...http://revisitandocastelobranco.blogspot.com/

REVISITANDO CASTELO BRANCO: Visita Pascal 2011 27 Abr 2011

De um lado um crucifixo, uma vela acesa, uma Sagrada Família… a “Páscoa” para o Sr. Padre; do outro, o folar, os doces os licores, as amêndoas. Então, entre cânticos de alegria, faz-se homenagem aos nossos ancestrais ...http://revisitandocastelobranco.blogspot.com/

 
Arlindo Parreira

Caros albicastrenses,

Na ardua, porem instigante, tarefa de resgatar as memórias dos tempos de juventude e do meu mandato regedoriano veio-me a lembrança esta passagem, que quero compartilhar com os mais novos. Um facto que aconteceu há muitos anos mas que é de grande importância para demonstrar a força e a valentia da nossa juventude de outras epocas.

Estavamos no fim de setembro.

Era sábado, e as vindimas ainda não tinham começado. Faltava o que fazer no fim do verão e as noites pachorrentas deixavam a malta impaciente e aborrecida. Naquela noite como em tantas outras iguais, para matar o tempo, organizamos um campeonato a jogar os matraquilhos entre as equipas do vale e das eiras, na taberna do nosso amigo e saudoso Cândido Pombo.

O jogo estava animado, os das eiras perdiam por cinco a dois para a equipa do vale. Foram golos marcados com muita classe e profissionalismo. Grandes craques, coisa nunca vista nem pelo Cristiano Ronaldo nem pelo Messi. Grande campeonato! No intervalo dos jogos, mais uma rodada paga pelos que perdiam.

- Que regalo, beber a borla, ainda mais com o gostinho da vitória. - Sabe sempre bem, não sabe?

Porem a paz reinou por pouco tempo naquela noite. Sempre há-de aparecer uma alma inquieta para apoquentar a dos outros e botar tudo a perder. Diz-me com quem andas que eu te direi quem tu és… Anda com os bons e serás um deles anda com os maus e serás pior do que que eles… Bons conselhos que da minha parte nunca foram seguidos mas que recomendo aos meus leitores mais jovens.

Ainda saboreavamos a rodada quando apareceram por lá uns rapazes cheios de entusiasmo que logo ao entrar, depois de baterem a continencia com todo o respeito que a guarda exigia, disseram para os Generais:

-Temos aqui um belo de um pirú pronto para um fadinho.

- Bô! Bôooo....

Há que desconfiar... Tanto entusiamos deixou a elite das tropas em alerta.

- Bô! Bôooo....

Nossos chefes eram experientes. Franziram  as sobrancelhas imediatamente. Porque a estes que tinham entrado esbaforidos, não havia que dar muita fé. Eram ainda garotos, uns novatos, ainda sem graduação nas tropas do gamanço, soldados razos que nem da recruta tinham passado. Em caso de dúvida toda a cautela era pouca.

- Bô!

Era pessoal sem experiencia nem autorização e que portanto já tinha violado as nossas regras.

- Bô! Mas... Mas nossos generais eram homens praticos e se o pensaram melhor o fizeram. Depois de rápida reunião de concilio chegaram a seguinte conclusão: -A cavalo dado não se olha o dente...

Melhor ainda: - Em piru gamado é que se enfia melhor o dente.

- Bô! Quem disse isso? O protocolo devia seguir a risca todas as exigencias de segurança e foi feito imediatamente o respectivo interrogatório.

- Então como foi que encontraram o piru? - De que galinheiro veio a ave? - Estava com alguma malina? - Foi envenenadao antes para facilitar o gamanço? - Era de boa procedencia?

Os rapazes repondiam a todas as perguntas mas a certa altura já cansados e ao verem tanta formalidade e burrocracia, cansados de responder a tanta pergunta, tiraram de dentro de um saco de batatas a ave. Espanto geral...

- Bô, bô, e bôooo...

Um rico piru, daqueles bem cevados, engordado com o melhor milho da paróquia e com ração reforçada de urtigas e farelos de trigo. Uma ave assim, nunca ninguem viu antes desse dia. Todos pasmaram diante de tanta fartura. Mais de meia arroba de xixa da melhor qualidade. Ai que ricas penas e que patas limpas e com um peito de respeito abaixo do cachaço longo e cabeçudo de goela vermelha e vibrante. Ficaram todos sem palavras

- B....

Verificamos então que o trabalho tinha sido feito com segurança total sem deixar rasto. Ponderamos e foi aceite pela maioria. Condecoramos os recrutas com a medalha da pena dourada. Comenda de altissima graduaçao e mérito que guardam até hoje tatuada no peito. Já viram algum com uma pena tatuada, viram? Não tenham dúvidas, foi um dos tais!

Examinamos o estado de saúde do pirú assim que me viu estremeceu, Já sabia o que o esperava, as vacinas estavam em dia...Nossa base do pirócas lá estava á espera para mais um grade fado. Foi um churrasco á grande pois éramos só uns 8 rapazes. Mas que belo piru. Tão empertigado. Um primor. Ave fina, tratada com esmero e que só comia e dumia para ficar com as carnes macias. O dono era um ricaço lavrador que tratava a ave com todo o capicho e com a maior modomia. Mas, enfim nao o chegou a provar. Que Deus lhe pague em dobro e bem haja, por nos permitir tão rico fado.

Piru temperado, brasas acesas para assar a carne... Nisto vimos que faltava vinho. Um dos recrutas foi logo a correr ao povo a buscar um almude de vinho. Em menos de uma hora voltou com a alforge da mula com dois garafões de cada lado. Noite a dentro, tudo correu as mil maravilhas na mais perfeita paz e harmonia e a festa durou até quase de madrugada.

Já de volta a casa ao chegar onde hoje é a casa do povo estava ali um carro carregado de lenha do Senhor Figueira. Mente vazia e todos com a barriga cheia e um tanto altos do vinho. Ao vermos o carro nem foi preciso falar alto o que todos tinhamos pensado ao mesmo tempo. O desafio era testar a força do vinho.

Começaram as sentenças e alguns já meios embriagados agarraram o cabeçalho outros as rodas e os demais a frente do carro e em minutos já estavamos com ele no adro da igreja. Gostamos do resultado da façanha. Uma obra digna de ser vista. O sucesso da arte empolgou a malta e resolvemos repetir. E venha mais do mesmo... Como o vinho em exagero só da para mal, começamos por apanhar os carros da aldeia e leva-los para o adro da igreja, um por um. Mais um, mais outro e no total lá estavam uns 10.

Todos foram levados e colocados de cabeçalho para cima apontando as baterias para Mogadouro como em sinal de guerra. Ainda para arrematar a façanha um deles foi posto encima do reservatório da água da soalheira. Toda esta operação não durou muito tempo e quanto terminamos o dia já começava a raiar. Já era domingo e em poucas horas seria celebrada a missa dominical.

Tocaram para a missa. Mas naquele domingo o sacristão quase não acertava o repique dos sinos embasbacado com tal espetaculo logo ali debaixo do campanário. Tremia-lhe a mão de espanto e so com grande esforço conseguiu levar a batidas do sino até a entrada da missa. Consciente da pantominice nao avisou o pároco do arraial que montaram no adrio, nem na festa de São Bernardino se faziam andores tão valentes.

Os fieis aos poucos começavam a chegar para a missa e antes mesmo de entrar na igreja já se percignavam no adro ao ver a arrumação. Um falatório imenso cresceu em uma tremenda confusão. Os comentários, eram de todos os generos e tipos e na maioria não eram nada meigos.

Uns reclamavam, outros riam a bom rir mas o melhor de tudo, toda a aldeia veio ver o espectáculo. Nunca o senhor padre teve uma paroquia tão devota para a missa dominical até os fregueses das tabernas vieram na missa nesse domingo atraidos com a noticia que já correra solta as ruas do povo todo.

Para não ficarmos de fora, nós oite  tambem fomos á missa para pedir perdão a Deus e claro, como não podia deixar de ser, para ouvir os comentários. Não deu outra, logo apontaram para nós.

- Um bom trabalho sim senhor de qaul de vós quem foi da ideia?

Alguém dizia:

- Isto é obra do diabo só pode ser!

- Olha ali o meu carro!

- E aquele é o meu. pouca vergonha!

o outro dizia

- Se não fosse esta brincadeira nem vinhas a missa! Ao que respondiamos: Estas a falar por nada. Outros não concordavam mas na verdade todos riam a bom rir.

Até aqui tudo bem…

Mas a segunda noticia chegou junto com o espanto dos carros a que todos já se estavam a acostumar. Neste instante chegou a dona do piru.

Enfurecida gritava e espalhava alhos e bugalhos.

- Os bardinos que lhe tinham comido o peru. - Arda guarda… - Arda guarda… - Que bardinos… - Ai que bardinos. Roubaram o piru e ainda lhe foram por as penas na varanda, para lhe atiçarem os nervos.

- Que pouca verganha, onde já se viu isto…

- Mas não vai ficar assim.

- Fiquem tranquilos que nao vai. Já chamei a guarda!

- o piru vai ficar salgado, vai, vai.

Ainda naquele dia fomos chamados e levados o quartel da guarda Republicana de Mogadouro para interrogatório. O comandante do quartel, um Cabo, que na pratica era a autoridade máxima do concelho fez o interrogatorio e lavrou o auto da infração.

Diz ele ao nos ver: - Entra como te chamas?

- Arlindo, meu capitão falei em tom exagerado de respeito! 

Ele enforecido olhou para mim e disse: ]

- Pois muito bem... Tu já es como como familia estavas demorando pra cá voltar. Fez mil perguntas mas nada de encontrar fio a meada…

Proximo: Como te chamas? Fulano de tal.

E que trazes ai no saco?

Resposta pronta: É um pão.

Ao que o Cabo retrucou: Parece que vens com ideia de ficar... E a samarra quer dizer que estas com frio?

A resposta veio a calhar do nosso camarada: A capa e a merenda nunca pesam.

E o Cabo: Meu rapaz, com que então, um fadinho de peru? Soube bem, soube? Vai sair salgado ai se vai! Nem que tenha que o tirar do couro…

Muita pergunta, mas ninguém sabia de nada e todos tinham a mesma resposta: - Fui para a cama cedo. - Não sei de nada.

O Cabo vendo que não conseguia pegar os culpados pelo piru ao ver que não ia dar em nada mudou o interrogatorio para os carros:

Mudou de tom e de repente de maneira amigavel diz: - Foi uma brincadeira ninguém apresentou queixa podeis dizer a verdade qual foi o da ideia?

Mas a rapaziada que de tola nao tinha nada logo se apercebeu da tatica do GNR e respondiam:

- Fomos todos!

Nisto ao olhar para o mais novo, o cabo perguntou de rompante: Qual foi o carro que fez mais, barulho? Com pouca idade e ingeno logo o novato respondeu: Pois atão só podia ser o que estava mais carregado. O cabo já tinha a confissão. Foi por isto que nos pegaram e deram uma multa por andarmos fazer barulho pelas ruas fora de horas.

Do piru até hoje ninguém descobriu nada.

É no que dá trabalhar com pessoal sem treino nunca mais aceitamos convite de estranhos.

Mas os faditos continuaram… E continuam até aos dias de hoje!

 

Abraços do

Arlindo Parreira, o ultimo regedor de Castelo Branco.

Até a proxima!

 
Luis Pardal

Uma imagem vale por mil palavras!

Obrigado Sylvie pela partilha desta belissima fotografia.

 

Alto da solheira, foto de Sylvie Mendes Neto


“Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.”

Fernando Pessoa  (Alberto Caeiro)

 
Isabel Cristina Pereira

Uma tradição que passou de mãe para filha durante tantas gerações e que agora perde a cada dia o saber e o sabor.

De manhazinha levantou-se a Maria, está frio mas o frio já é habitual nesta altura do ano, hoje é dia de cozer, e não há frio que a faça ficar quieta!

“O pão moderno não satisfaz a alma”, então a Maria pelo menos uma vez por mês mete mãos a obra e recua no tempo para fazer o pãozinho de outrora, do qual todos nos temos saudades, e eu se quero tirar as fotos que vos vou mostrar também tenho que madrugar, tenho que apanhar a Maria ainda com as mãos na massa ou estas fotos não teriam piada nenhuma.

É num pequeno forno de lenha, um dos poucos ainda existentes na nossa aldeia que a minha sogra Maria Pomares coze o seu pão. Espero que gostem e matem saudades! Eu por cá sou uma felizarda pois para além de ver como se faz, ainda tenho o privilégio de comer deste “pão caseiro” acabadinho de fazer!

Por :Isabel Cristina Pereira

(passe o mouse em cima das fotos para ler a legenda das imagens)

Acender o forno é tambem uma sabedoria a lenha tem que ser distribuida de forma igual e o forno não pode ser superaquecido ou o pão vai queimar antes de cozer.

na masseira começa a alquimia dos elementos: farinha, sal, fermento e agua se misturam com a sabedoria das mãos para dar liga e textura ao pao albicastrense

a massa fica em repouso e leveda lentamente coberta por lençois e mantas para que o frio que faz lá fora não a impeça de crescer e quadriplicar de tamanho

depois que a massa levedou começa a separação dos paes um a um são amassados e dada a forma final para voltarem a levedar individualmente antes de ir ao forno

depois que a massa levedou é hora de cortar e dar forma aos pães. Em seguida já dividida a massa em paes cresce novamente para levedar antes de ir ao forno.

hora de ver se forno está pronto para assar o pão. Um papel é jogado dentro se ele se incendiar é sinal que a temperatura está no ponto certo, caso não acenda hora de colocar mais lenha apra atingir o ponto. As pedras do fundo do forno tambem dão o sinal de que tudo está ok pela cor e pelo aspecto que assumem depois de aquecidas pela lenha   hora de colocar a massa para cozer no forno.

a massa começa a ficar dourada a medida que os pães vão cozendo no calor certo do forno, são pães de no minimo 1,7kg, é preciso cuidado em dobro nesta hora  Na frente do forno as bolas menores e que portanto assam mais rápido e precisam ser tiradas antes dos paes maiores

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Outros artigos no blog sobre o pão albicastrense:

(clique nos títulos para seguir link)

REVISITANDO CASTELO BRANCO: Nem só do pão, mas dos ... Ainda a fornada estava quente, a sair do forno, e quase metade dela já estava destinada para devolver os pães que tínhamos pegado emprestado de outras padeiras. Antes mesmos de sair do forno, os pães eram entregues ...

REVISITANDO CASTELO BRANCO: O moinho e o moleiro ... a existência de searas que forneciam o trigo e centeio para fabricar o bom e saboroso pão de Castelo Branco, cozido, em tempos idos, em fornos comunitários, por mãos hábeis de “famosas padeiras albicastrenses”.

REVISITANDO CASTELO BRANCO: Alheiras as melhores do mundo  A boa qualidade do pão garante a combinação homogênea dos ingredientes e o resultado diferenciado de sabores consistência e aparência externa das alheiras. O pão caseiro de farinha de trigo ou centeio é o detalhe e o ...

REVISITANDO CASTELO BRANCO: Merendas da Segada. Então ... O pão era confeccionado pela minha avó e pela minha mãe. Pão saboroso e largamente conhecido e afamado. Há que fazer jus a tal confecção, não fosse a minha avó a tão afamada padeira do chamado e conhecido “pão ...

REVISITANDO CASTELO BRANCO: Serões na aldeia O pão que ela mesmo cozeu, as berças que já tantos anos não comia, os chichos da surça assados, milhos para nos lembrar que o Natal que se aproxima e os diospiros, única fruta neste tempo na nossa aldeia. Para mim foi ...

REVISITANDO CASTELO BRANCO: Ao toque dos sinos Uma grelha aquece no braseiro da lareira enquanto espera as fatias de pão para torrar. Aos poucos os donos da casa vão chegando e, um a um sentam á roda do borralho. Filho vai lavar essa cara diz a mãe para o mais ...

Boa leitura e um forte abraço albicastrense

Luís Pardal

 
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